quarta-feira, 7 de julho de 2010

Continuando a estrada da voz...

7. Parei na princesa (ou rainha), agora entra o ogro: Ozzy Osbourne. É a síntese do vocal de heavy metal. Um contraponto agudo a massa sonora de registro extremamente grave do Black Sabbath. E o mais importante: parece que jamais se levou totalmente à sério.

8. Johnny Cash é uma voz impressionante. Transitando entre o folk e o country é impossível não se render às suas interpretações, mesmo que não goste do estilo. Seus últimos registros são fantásticos, ele refaz Rusty Cage e Personal Jesus (pra ficar só em dois exemplos) como se fossem suas.

9. Bob Marley provavelmente é o mais apaixonado cantor que eu já ouvi. Apaixonado pela sua música, pelas verdades que ele vive ali. Qualquer música na voz de Bob é um depoimento sincero e comovente.

10. Kelly Jones, guitarrista da banda galesa Stereophonics tem um registro impressionantemente rouco. Lembra o Rod Stewart dos Faces. Mas Kelly é mais malandro e cheio de bossa, beira o exagero às vezes. Interpretando Don't Let me Down, dos Beatles ele consegue ser ainda mais convincente que o próprio Lennon. Sublime.

11. Mas, nenhuma voz dessa nova geração roqueira é tão impressionantemente boa quanto a de Caleb Followill, do Kings of Leon. Além de um timbre único, uma voz muito bonita mesmo, ele acelera e "tira o pé" na hora certa. Claro que sua banda é muito boa, mas muitas de suas melhores canções são levadas, até mesmo ritmicamente, pela voz impressionante de Caleb.

12. Não poderia deixar de falar de quem não vou falar: Elvis. Acho chato, típico herói americano. Claro que é talentoso e tinha uma voz incrível. Mas quando penso no rei do rock, lembro daquela jaqueta branca cravejada de brilhantes ou aquelas rídiculas películas que assolavam Sessão da Tarde na década de 70. Além do que, suas boas músicas não lotam um fusca. Junte-se aqui outro herói americano, morto recentemente, que não merece sequer a não-citação e também o vox de uma banda irlandesa que tem o som maneiríssimo, mas que esse sujeito enjoado consegue estragar.

13. Meu gosto pela voz de Jeff Tweedy deve se confundir com o tanto que eu gosto da música do Wilco. De qualquer forma, duvido que sem ele o som da banda seria o mesmo (até porque ele é meio que o dono da banda...)

14. Eric Burdon dos Animals é meu vocalista preferido das bandas dos sixties. Linda voz, cheia de energia. Também merecem registro Roger Daltrey do The Who e, claro, o eterno Jim Morrison.

15. As harmonias vocais mais belas do rock devem-se à Crosby, Stills e Nash (e Young). É claro, não há aqui ineditismo, grupos vocais eram frequentes entre a música negra (Temptations, Supremes) e mesmo os Beach Boys já faziam isso desde o início da sua carreira e o Queen levaria esta idéia a extremos (então) inimagináveis. O álbum homônimo é fantástico e trilha obrigatória de Woodstock. A melhor descrição de sua música vem de Wooden Ships: Wooden ships on the water, very free... Easy, the way it's suposed to be...

16. Sim, existe uma penca de vocalistas negros de soul, gospel etc e tal que colocariam (pelo menos) metade desta lista de joelhos... Conheço pouco a paragem. Gosto muito de Otis Redding e Marvin Gaye, são dois registros e idéias de cantar muito distintos e, coincidentemente tiveram fim tragico (principalmente Marvin Gaye, assasinado pelo próprio pai). O pouco conhecido Baby Huey morreu antes de completar seu único disco, mas deve ser reconhecido como uma voz potente e brilhante. O lindo disco gospel de Ben Harper com os Blind Boys of Alabama também está na categoria de música vocal da mais alta qualidade. Stevie Wonder adoro ouvir também sua voz, além de sua música excepcional, e o falecido Billy Preston tem uma participação magnífica no Concert for George. Claro, isso tudo sem falar no maior de todos, Ray Charles, que é sinônimo de música, em todos os sentidos.

17. A presença da voz humana na música pop abre as portas para a presença feminina no rock, que sempre foi clube do bolinha. Janis Joplin é referência óbvia, obrigatória e, mais do que justa. Nenhum vocalista homem de rock jamais chegou a seus pés. Jóia, mais que rara, única. Mas a minha favorita mesmo é Aretha Franklin. Onde é normal escutar uma pá de vocalistas que cantam gritando, Aretha grita (quando necessário) cantando. Da nova geração, gosto de Norah Jones, mas Amy Winehouse é simplesmente imbatível. Impossível não se render à sua música, e como se não bastasse, seu comportamento já é a de um mito pop, com vida pessoal atribulada regada a casos amorosos indizíveis e todo o tipo de drogas.

[CONTINUA AINDA, COM A VOZES DO BRASIL]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Seguindo a estrada...

E seguindo a lista de guitarristas, a outra ponta fundamental do rock'n'roll e da música pop: a voz. Claro que sem letra, o rock é quase nada. Seria quase um jazz de baixa qualidade. Mas a letra, a canção elevam o rock à posição de mãe de todas as artes pops do século passado. Este curioso caminho leva ao rap, quase uma ruptura entre música e letra, processo que destila a canção em duas partes quase desiguais.

Mas o assunto não é esse. E sim, mais uma lista. Quais os cantores favoritos deste blogue? A lista segue os padrões das anteriores: nenhum critério objetivo, apenas gosto. E continuo sem ordem de preferência...

1. Começo com Mick Jagger. Tento redimí-lo de sua azarada aprição na copa do mundo de 2010. Ele certamente conseguiu um eterno "passe proibido - persona non grata" em qualquer estádio de futebol. E começo justamente por aquele que deve ser o cantor mais fraco (do ponto de vista da técnica vocal) desta lista. E é aí que esta, de novo, o segredo da maior banda de rock de todos os tempos, este encontro de músicos limitados que o tem em plena consciência, com disposição, bom gosto e sensibilidade para fazer a melhor música possível, esticando a fronteira destes limites ao máximo. Além do que, este é o cara que transforma um show ao vivo em espetáculo inesquecível. Ele catalisa, como uma faísca, o processo que é inerente à música dos stones. Os stones são energia potencial enquanto que Mick é cinética. Seu grande momento (além dos anos clássicos da transição de Brian Jones para Mick Taylor) é o álbum Black and Blue, de 1976.

2. Neil Young. Ele é rústico, cru e tem um timbre único. Transita do folk ao grunge sem meios termos e com a maior naturalidade. Como compositor é brilhante, tem a mais honesta coleção de músicas desde que o rock foi inventado. E como se não bastasse, este cara interpreta suas próprias músicas como se não fosse ele mesmo quem as escreveu. No clássico ao vivo de CSNY, Four Way Street, ele executa um set acústico (e sozinho com seu violão) de músicas originalmente elétricas, Don't Let it Bring You Down, Cowgirl in the Sand e Down by the River. De arrepiar.

3. Van Morrison. Aqui está a primeira grande voz da lista. O bardo irlandês não economiza talento quando tem de cantar. E apesar da grande potencialidade vocal, sobra enorme margem para uma sensibilidade incomum. Seja em suas próprias canções (ouça-o por exemplo cantando Caravan no show de despedida de The Band...) ou em interpretações de soul, como no ao vivo It's too Late to Stop Now, Van é o cara.

4. Eddie Vedder. O melhor de sua geração. Por incrível que pareça no aclamado álbum de estréia do Pearl Jam, Eddie ainda não tinha encaixado sua voz... Este processo aconteceu ao longo dos discos sequentes, e culmina em Riot Act, considerado um trabalho menor na discografia da banda, onde o vocalista pode mostrar sua incrível sensibilidade para cantar baladas e músicas com andamento mais lento e menos agressivo. Afinadíssimo e dono de belíssimo timbre, Vedder fez desmanchar a pedreira Paulo Leminski cantando The Last Kiss só com sua guitarra enquanto resto da banda tomava um refresco. Seu grande momento entretanto me parece a trilha sonora de Na Natureza Selvagem (Into the Wild).

5. Paul McCartney era a voz mais bonita do Beatles, além de ser o cara que melhor transitava entre diferentes estilos e temperamentos. No álbum branco de 68 ele canta rock'n'roll (Back in the USSR), baladas folk (Blackbird ou Rocky Raccoon), primórdios do Heavy Metal (Helter Skelter), jazz (Honey Pie) e outros com a maior naturalidade. Sou fã.

6. Freddie Mercury. Meu cantor favorito, leva ao extremo o talento de Paul para variar entre estilos, o de Mick como catalisador, e o de Van Morrison como voz. Intérprete de suas prórpias composições ou de outros membros da banda como Brian May e John Deacon, Freddie sempre se lançou inteiro, de corpo e alma nas canções. Em Bohemian Rhapsody, você realmente acredita que ele matou um cara, enquanto que Somebody to Love é uma verdadeira autobiografia. A diversidade de seu talento como cantor fica evidente principalmente em News of the World (de '77), onde além de clássicos do Queen, cito duas canções menos conhecidas, Who Needs You (de Deacon) e Melancholy Blues (dele mesmo). Homossexual assumido, morreu de Aids é a antítese do roqueiro típico (junkie, comedor e empunhando uma guitarra), indo muito além do universo rok'n'roll com sua música.

[CONTINUA...]

terça-feira, 29 de junho de 2010

LISTA DE ERRATAS

Eu sabia que seria apenas uma questão de tempo entre eu publicar uma maldita lista e me arrepender dos nomes esquecidos... Na minha lista de guitarristas por exemplo, é claro que isto aconteceu.

Carlos Santana eu sequer citei na lista de injustiçados o que torna o guitarrista americoxicano duplamente injustiçado. Ainda que eu ache o som dele um pouco repetitivo existe um grande número de ótimos momentos, e esses dias mesmo eu escutava duas música de uma colaboração sua com John Lee Hooker, e ficou simplesmente fantástico.

Ry Cooder também merecia uma lembrança, seu trabalho no slide é bastante delicado e inspirado. Quando citei o fiel escudeiro de Keith Richards, o stone mais novo Ronnie Wood, esqueci de mencionar seu trabalho brilhante com os Faces, Sweet Lady Mary tem um trabalho magnifico de lap steel e Stay with Me é rock'n'roll irrestível... Os dois guitarristas da segunda formação dos Black Crowes, Marc Ford, guitarrista solo, e o irmão fundador Rich Robinson são de chacoalhar o esqueleto, responsáveis pelo som na melhor fase da banda, assim como o novo guitarrista solo, Luther Dickinson, que tem uma abordagem um pouco mais country.

Marc Ford tem um trabalho lindo no disco de gospel que Ben Harper gravou com os Blind Boys of Alabama, o que já me lembra outro nome esquecido, Ben é um exímio guitarrista, principalmente no slide, e o público brasileiro o conhce muito bem pela lindo dueto com Vanessa da Mata em Boa Sorte/Good Luck.

Mas o que eu mais me arrependo de ter esquecido é o irlandês Rory Galagher, guitarrista quase obscuro que era capaz de tocar gaita e slide simultaneamente (e ainda cantava). O álbum póstumo Rory foge um pouco ao seu estilo original mas traz momentos acústicos belíssimos.

Alguns nomes do Jazz também poderiam merecer uma citação, Wes Montgomery, Charlie Christian e o cigano Django Reinhardt, mas não é a minha praia. Gosto muito de George Benson, que se rendeu ao pop com muito estilo e o "pianista" Stanely Jordan, que desenvolveu uma técnica única e cuja interpretação de Eleanor Rigby é de arrepiar...

Entre os brasileiros, gosto muito de Davi Moraes que deve ter tido umas aulinhas com o pai Moraes Moreira e o "tio" Pepeu; e John Ulhoa, que sabe como ninguém tocar com a linda e deliciosa voz da Fernanda Takai.

Espero não ter esquecido mais ninguém dessa vez...
[M]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Será mago?

Imagino eu que no dia de hoje, ao redor do globo, um sem número de blogues deve estar falando sobre José Saramago... Destes, o que mais me deixa curioso é, como não poderia deixar de ser, a pena vadia. Até porque eu nem sou assíduo leitor de blogues e este é mesmo um dos meus favoritos. E lá vou a derivar do assunto principal...

Outro dia uma pessoa muito querida me pediu umas dicas de blues em português, que não fossem (é óbvio) os blues etílicos. Esquivei-me dessa com a desculpa de que blues e português não combinam, salvo momentos bastante pontuais (o Cartão Postal da Rita Lee é meu favorito...). Mas nada de esfarrapada tem essa desculpa, eu acho isso mesmo. A língua, ou, as línguas, têm um ritmo, uma cadência e uma sonoridade própria. Da mesma forma que samba em japonês costuma ser esquisito, blues em português também enrosca. Como também o rock em italiano ou em francês não me desce.

Mas há exceções. Mesmo que não entenda muito bem as palavras, o rap francês do McSolaar é melhor do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido na sua língua original, bem como o blues-rock com sotaque flamenco de Jarabe de Palo me soa muito bem, como se estes artistas tivessem descoberto o viés comum entre sua língua falada e uma música que originalmente nasceu em outro ramo linguístico. O mesmo se pode dizer do uruguaio Jorge Drexler, que consegue encaixar perfeitamente o espanhol numa mistura de música (hispano-)latina, brasileira e pop-rock inglês.

Aqui mesmo nos trópicos ensolarados, terra do samba, da bossa-nova, forró, moda de viola e tantas outras diversidades, a musicalidade do rock também se encontrou com a nossa língua de maneira sublime em Raul e seus parceiros, Rita Lee, a turma dos anos 80 e, mais contemporaneamente, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Lenine, Vanessa da Mata, Céu... Bem, a lista parece ser extensa, ainda mais com pitadas de Gil, Caetano e do Clube da Esquina. Mesmo que a poesia rock-brasileira não seja lá a de um Chico Buarque, bem, acho que a proposta nem é essa mesmo, não é?

E onde entra o Saramago? Bem, sinto que eu mesmo me perdi um pouco... Descobri o Saramago lá na primeira metade dos anos 90, um livro (Jangada de Pedra) depois outro, depois outro... Foi overdose! A leitura de Saramago é cheia de ritmo (bem, toda leitura é, não é mesmo? Acabo de ser contrariado aqui do meu lado. Enfim...), mas ele consegue ser frenético no encadeamento de ideias e ao mesmo tempo suave na sua forma de manifestá-las. Muito difícil captar esse seu ritmo, mas muito fácil acompanhá-lo, Saramago é um músico que torna seu leitor bailarino inconsciente.

Ave José.

[M]

terça-feira, 8 de junho de 2010

LISTAS, LISTAS (...CONTINUAÇÃO)

6. O menestrel Steve Howe tocou guitarra na banda (e no gênero) que ficou conhecido pelos teclados. Mas não se engane: Steve Howe era o verdadeiro coração do Yes. De formação erudita, Steve sabia tocar violão folk, guitarra espanhola, bandolim enfim, tudo que tivesse cordas. Mas também não se acanhava de maneira nenhuma em meter a mão nas suas Gibson ou de tocar slide suavemente. Ingrediente fundamental na música do Yes, os licks de Heart of the Sunrise e Siberian Kathru não me deixam mentir.

7. Os voadores Jeff Beck e Derek Trucks. Jeff Beck começou com os Yardbirds tocando blues e rock e com a difícil missão de substituir E.C. E por ironia do destino, com ele a banda ficou ainda melhor, ele tinha uma abordagem mais agressiva e experimental. Isso já seria por si só digno de nota, mas não é tudo... Continuou na toada com Jeff Beck Group, que pode ser considerada uma das bandas precursoras do Heavy Metal. Mais um último disco (fantástico) de rock com os "Cactus" Bogart e Appice e Jeff deciciu migrar para a música instrumental numa estilo que chamaremos, na falta de nome melhor, fusion. Mais ou menos nesta época abandona de vez a palheta e passa a tocar só com os dedos, o que mudou totalmente sua abordagem do instrumento e sua musicalidade. Cause we've ended as lovers e Superstition de Stevie Wonder e a recente releitura de A day in the life dos Beatles são de tirar o fôlego. Derek Trucks é sobrinho de Butch Trucks, baterista original dos Allman Brothers Band, o que lhe confere um estranho e distante parentesco com Duanne Allman, o Sky Dog. Ainda mais quando constatado que Derek nasceu cerca de 10 anos depois de sua prematura morte. Derek toca de maneira magistral a guitarra slide, e a influência de Duanne é óbvia, mas, na minha opinião sua música é ainda melhor. Ele abusa de entretons o que confere ao som de sua banda uma certa sonoridade oriental, mesmo sem tablas, cítaras e outra peças do gênero. Songlines e Already Free, seus dois últimos álbuns são imprescindíveis (saiu um ao vivo recente agora mesmo em 2010).

8. Os artesãos Jack White e Tom Morello. Dois guitarristas pancada mesmo, Tom Morello é impressionantemente inventivo mas a música de Rage Against the Machine é difícil de escutar por mais de 10 minutos consecutivos, recomendo Audioslave, sua nova banda que é mais pop. Jack White é mais simples e faz uma mistura de punk rock com blues que dá certo. De Stijl é o melhor disco do White Stripes e sua guitarra pode ser apreciada com facilidade, enquanto que nos Raconteurs você vai escutar melhor a sua música como um todo. A trilha de James Bond-Quantum of Solace com Alicia Keys é imperdível...

9. O cavalheiro John Frusciante. O guitarrista dos Peppers é extremamente elegante e melódico e; ainda por cima, vintage. Além de alternar levadas pesadas com funks precisos é capaz de executar as mais belas baladas como Under the Bridge. Sua abordagem encaixa de maneira perfeita na música dos RHCP, no melhor exemplo de músico a serviço da música e não o oposto.

Robbie Robertson tocando uma... um... bem, deixa pra lá.

10. Os caipiras Robbie Robertson e Albert Lee. O primeiro, guitarrista da The Band e seu principal compositor. Como tal, traz outra percepção para o papel da guitarra na música: primeiro vem a composição, depois a guitarra vai colorindo o desenho que se esboça. Albert Lee já fez parte da banda de Eric Clapton (Another Ticket) mas é tocando guitarra country que ele pode ser melhor apreciado. Recomendo seu trabalho junto com os Bill Wyman's Rhythm Kings.

11. Os pioneiros Robert Johnson, Chuck Berry, Muddy Waters e John Lee Hooker. Mais pelo pioneirismo do que pelo som, eu não sou muito chegando naquelas gravações chiando a agulha com vocal de banheiro apertado, mas Robert Johnson tem um baú de composições atemporais (em especial a interpretação dos Stones para Love in Vain), Muddy Waters eletrificou o blues e também era um compositor magnífico (além de uma voz inesquecível), Chuck Berry inventou a guitarra rock e John Lee Hooker era o rei do Boogie e ninguém mais toca (ou tocou como ele).

12. Os sanchos-pança Mick Taylor e Ronnie Wood. Dom Keith Richards de la Mancha pouco seria sem seus fiéis escudeiros às avessas... Mick Taylor era discreto e sem nenhuma pressa, a conferir seus solo de slide na versão ao vivo de Love in Vain: magnífica. Com a troca deste por Ron Wood (que já tinha um trabalho fantástico como guitarrista dos Faces, escute Sweet Lady Mary por exemplo) a fronteira entre os papéis de guitarrista rítmico e solista nos Stones ficou mais difusa... Confira o álbum Some Girls, especialmente a faixa-título.

13. Os injustiçados (desta lista): o mestre do slide Duanne Allman, os heróis do metal Toni Iommi, Rtchie Blackmore e Steve Morse, o tornado texano Stevie Ray Vaughan, o bluesman com suingue B.B. King, o super-herói da velocidade Eddie Van Halen e o saudosista Brian Setzer talvez merecessem mais atenção, mas o post já vai por demais se estendendo e eu já estou de saco cheio de escrever...

14. Os Xaropes Steve Vai e Joe Satriani. Nem vou comentar. Tecnicamente os melhores da lista, nota 1.000. Musicalmente, desprezíveis.

15. Os brasileiros: Lanny Gordin, Sérgio Dias Baptista, Luis Sérgio Carlini, Pepeu Gomes, Roberto de Carvalho, Edgard Scandurra e Lucio Maia.
Lanny era o guitarrista da tropicália. Desta forma seu som ia muito além do rock e pode ser conferido nos melhores discos da época, em especial no Expresso 2222 do Gil. Sérgio dispensa maiores apresentações, guitarrista dos Mutantes e um dos motores criativos daquela que foi a melhor de todas aqui na terrinha. Dune Buggy e Cantor de Mambo são meus momentos favoritos. Pepeu guitarrista dos Novos Baianos, onde ficava escondido pode ser melhor apreciado quando a banda terminou e ele se juntou a Baby em carreira "solo a dois". Deu canja em muitos álbuns por aí, incluindo A Cor do Som, Moraes Moreira... Carlini e Roberto estão diretamente ligados à careira da rainha do rock, Rita Lee. O primeiro ajudou a mostra que ela poderia se virar, e muito bem, sem os Mutantes. Os dois primeiros álbuns dela com o Tuti-Frutti (Atrás do Porto tem uma Cidade e Fruto Proibido) estão entre o que há de melhor na discografia de rock nacional. O solo repetido de Ovelha Negra já é parte do cancioneiro nacional, exemplo da beleza das coisas simples. Roberto o marido, companheiro e multiinstrumentista que encarou o desafio de transformá-la em sucesso pop sem perder um pingo de qualidade musical. Rita Lee de '79, o homônimo de '80 (também chamado de Lança-perfume) e o disco Saúde (de '81) contém o melhor de sua produção, em especial em Bem-me-quer (de '80). Edgard, guitarrista do Ira! é o melhor guitarrista de sua geração, disparado. Pena que nem suas canções nem sua banda fosse tão boa quanto Ultraje, Titãs, Paralamas ou Barão. Dono de uma técnica única (que só conheço no violonista Canhoto da Paraíba), Edgard que é canhoto, toca numa guitarra de destro ao contrário, o que deixa as cordas mais graves em baixo e as mais agudas em cima. Não consigo nem imaginar como ele monta os acordes... Lúcio Maia (geralmente) é o contraponto melódico da Nação Zumbi, o que faz com maestria. Sem jamais se sobrepor às canções (geniais principalmente na época de Chico Science) Lúcio vai preenchendo de maneira elegante (ou agressiva) conforme a conveniência os buracos abertos pelo estraçalhar dos tambores da Nação.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Listas, listas...

É frequente, ainda mais em tempo de internet, aparecerem listas do tipo "as melhores canções pop de todos os tempos" ou "os melhores cantores do pop rock da década de 80" e por aí vai. Nenhuma destas listas merece mais do que um golpe de olho curioso, sem que se leve muito a sério. Qualquer lista dessas é subjetiva, por mais que seja um conjunto de subjetividades de vários sujeitos, tomados na média, talvez.

Enfim. Eis aqui mais uma lista para não ser levada a sério. Eu não assisti ainda ao documentário It Might Get Loud, brilhantemente comentado pelo PQ. Mas a última (se é que não é já a penúltima...) Rolling Stone traz Jimi Hendrix na capa e uma entrevista conjunta com Jeff Beck e Eric Clapton. Este post já estava na minha cabeça faz tempo. Já fermentou a ponto de estragar. A idéia e fazer uma lista com os "maiores guitarristas (de rock ou similares) de todos os tempos". Claro, é a absolutamente minha lista. Não segue nenhum critério, só mesmo o meu gosto, o que está muito longe de sê-lo...

A única diferença é que a lista vai comentada. E a ordem não indica preferência, apenas lembrança.

Hendrix e sua Flying V

1. Eric Clapton: nome óbvio quando se fala em lista de guitarristas. Mesmo quem não gosta muito, cita por respeito, para dar credibilidade à lista. Não é de maneira nenhuma meu caso. Eric Clapton é uma espécie de sidarta gautama da guitarra. Com ela empunhada, ele desaparece num estado meditativo em que a música parece soar sozinha, vinda de uma caixinha dourada com a bailarina em cima. Ele simplesmente parece que não está lá. Clapton não é um exímio compositor de canções (como muitos que aparecerão aqui), mas seus solos são exuberantes. Sem rococó nenhum, sem técnicas malucas de tapping, sem desvarios frenéticos de velocidade, E.C. toca um solo como se ele só pudesse ser tocado daquele jeito. As notas encaixam no lugar e no tempo certo, a escolha dos silêncios, dos bends, tudo acontece como se só pudesse ser assim mesmo. E mais: os solos de Clapton são melódicos e não um mero desfile de notas dentro da escala tocadas a pretexto de demonstração de destreza. While my guitar gently weeps, canção célebre do seu amigo George Harrison é a melhor descrição para a abordagem que E.C. tem da guitarra. Nada mais justo que George tenha lhe dado a oportunidade de tocar o solo nesta música...

2. Jimi Hendrix, é claro. Bem, a primeira impressão é a de que Hendrix não era de fato, deste planeta. Enquanto Clapton parece não estar presente quando toca sua guitarra, Jimi é o extremo oposto: a guitarra é que parece ausente. Aqui, a música é corporal, visceral, Hendrix é, na verdade, um bailarino. Não, não me interessa guitarra tocadas com dentes, de costas ou pegando fogo. Tampouco festivais de feedback ou solos de 10 minutos. Se fosse só isso, seria só isso. Pouco se fala mas Hendrix era, acima de tudo, um baita guitarrista rítmico. Por isso "o bailarino". Compositor de várias das mais belas canções do rock, Jimi tocava dançando e sua abordagem rítmica alterna acordes, licks, riffs... Isto é hora harmônico, hora melódico, ora é ambos. Wait Until Tomorrow é uma música sem solo de guitarra nenhum, e nem precisa, aqui ele baila entre o solo, o grupo, o músico e a canção, tudo como se fosse uma coisa única.


3. Keith Richards. "Keith Richards é tão ruim que ninguém consegue copiá-lo". Eu já li isso em algum lugar, felizmente já não me lembro onde. O final da frase é verdade, o começo é uma senhora mentira. Claro que Keef não conseguiria tocar como o medidativo Clapton ou o bailarino Hendrix, mas não importa (e eles? conseguiriam tocar como este aqui?). Tecnicamente limitado se comparado a outros é verdade, mas quem não é? (Talvez só Pelé). A sua genialidade (sim, genialidade, não estou brincando) deve-se ao fato do tanto que ele consegue fazer dentro destes limites. E não é pouco! O pirata do rock sustenta a maior banda de rock do mundo há quase 5 décadas, e é responsável direto por clássicos reconhecíveis até por um cachorro bêbado: satisfaction, jumpin jack flash, brown sugar, honky tonk women, start me up (pra ficar só no óbvio), além de licks menos famosos mas igualmente belos como em tumblin' dice e beast of burden.

4. George Harrison. Diferente dos três anteriores, Harrison não era blueseiro, nem trazia forte influência de blues. George era mais genérico, gostava de Carl Perkins, tocava um slide maravilhoso e troxe a música indiana para o rock. E não como pastiche, mas de uma maneira harmoniosa e bela. Quando os Beatles davam sinais de cansaço, ele emerge como grande compositor em something, here comes the sun e while my guitar gently weeps. E quando os Beatles abandonaram de vez o barco ele mostrou ao mundo All Things Must Pass (que deve ser o primeiro e único album triplo da história do rock) e Living in the Material World. George era o músico.

Keith Richards com seu glimmer twin

5. Os arquitetos Brian May e Jimmy Page. Os dois arquitetos do rock tem uma abordagem semelhante no estúdio, desenhando com a guitarra e seus timbres estruturas muitas vezes complexas (ou extremamente simples) dentro da música das duas maiores bandas de rock da era pós-beatles. A diferença é que enquanto Mr. Page era simplesmente o dono do Led Zeppelin, Brian aprendeu a conviver e participar de forma brilhante da música de um sujeito que era simplesmente genial. Claro que Brian May tinha também ótimas composições, mas sua guitarra pode ser melhor apreciada exatamente nas músicas de Freddie, onde ele agrega sem tirar o foco do principal, a canção. Claro também que o som dessas bandas era completamente distinto, uma só ia na boa e pavimentou a estrada do hard rock/heavy metal enquanto a outra era anárquica e esteticamente experimental. Jimmy é o arquiteto com queda pra engenheiro e Brian o arquiteto com queda para o design...

(CONTINUA...)

It Might Get Loud (de um convidado especial...)

Caros leitores deste blogue... Sinto muito pela longa ausência. Eu mesmo gostaria de estar mais postante, mas estou por demais atarefado com obrigações diárias e mundanas... Vida triste essa da gente. Primeiro o que a gente TEM QUE FAZER e só depois, se sobrar tempo, o que a gente QUER FAZER...

Idéias pintam, é claro. No banho, de noite na cama, no carro... Falta a bunda. A bunda na cadeira e os dedos ali, tlec, tlec, tlec...

Mas, enquanto seu lobo não vem, vou postar um convidado muito especial, tirado de http://penavadia.blogspot.com/. Vale a pena ler este blogue, o espectro dele é bem mais amplo que o meu, e seu último post cabe muito bem aqui. Grato ao PQ que me emprestou o texto. Chega de nhém, nhém nhém.: vamos a ele.

" 'It might get loud' é o que diz Jimmy Page – com um sorriso no rosto e um plug na mão – a certa altura do magnífico documentário de Davis Guggenheim, que se desenrola a partir do encontro de Page, The Edge e Jack White.

O encontro é supimpa, não apenas pela alta música que dele resulta, mas pelo deslavado elogio da guitarra elétrica. O documentário é uma apologia da guitarra: seus timbres, suas texturas, suas formas e, é claro, os truques em que são mestres os três mestres. Mas a apologia se transforma em verdadeiro apólogo, quando são as três guitarras que dialogam, dizendo coisas que não se pode transformar em palavras.

Linda a cena de Jack White construindo a mais precária (e portanto mais bela) das guitarras, com pouco mais que uma tosca peça de madeira, uma corda, amplificador, eletricidade e… uma garrafa de coca-cola como ponte. Difícil não ver aí uma referência à arte pop, e à possibilidade de que, das entranhas do consumo, venha a nascer um objeto único, irrepetível e irredutível ao desejo massificado. A guitarra, como a música, participa do universo do sagrado.

O documentário é também uma pequena e deliciosa aula de história: o experimentalismo com as potencialidades do rock inglês no cenário da liberação dos 60 e 70 (Yardbirds e Led Zeppelin), aquele minimalismo de acordes em que se condensa o grito pacifista a partir da Irlanda dos anos 80 (U2), e esse tal de rock’n’roll que reaparece com tudo na América, nesta turbulenta última década (The White Stripes, The Raconteurs).

É curioso que o mais novinho do bando seja o americano, e que seja ele também o mais disponível dos 3, ou pelo menos aquele que mais parece estar ainda experimentando poeticamente. Sigo pensando na maneira como White fala sobre o que significa tocar os objetos que produzem os sons. A textura, para ele, não é apenas a textura misteriosa da música. A textura da música passa antes pela descoberta da textura das coisas, e das vibrações que elas escondem. É pelas coisas que nos comunicamos com o além, com o sagrado.

Por último, o percurso entre a Inglaterra, a Irlanda e os Estados Unidos é uma poderosa viagem musical, como se auscultássemos um som virtual: aquilo que pode acontecer sempre que se dá esse raro encontro transatlântico, isto é, sempre que o rock das ilhas toma o navio de volta, atravessa o mar do Norte e vem reencontrar as suas velhas raízes, tornando-se, lá no fundo, o blues que ele nunca deixou de ser. Que o blues reapareça no fundo inescrutável da guitarra de um jovem branquelo de Detroit, de origem humilde e que talvez tenha aprendido a usar as mãos artisticamente estofando móveis antigos, é um desses mistérios fabulosos, que parecem acontecer de tempos em tempos. Com eles, renovamos nossa fé. And it might get loud."

http://penavadia.blogspot.com/