sexta-feira, 9 de julho de 2010

Estrada do Sol (parte II)

Sim! chegamos a nossa querida e ensolarada terra-mãe...

A música brasileira tem uma tradição vocal (e poética) muito superior à do rock'n'roll. Não vou percorrê-la, seria pobre perto do seu tamanho e sairia muito do foco original do post (algo que já me aconteceu na parte I...). Começo pela geração da Tropicália. Como cantores (e músicos e poetas...) ninguém foi tão longe.

22. Gilberto Gil e Caetano Veloso. Claro, ficaram velhos e chatos. Um virou ministro, administrador de ONG, vereador... Outro parece transformar sua música em artigo científico... Uma pena, mas esses caras mandaram pelos menos uns 20 anos de excelente música. A melhor que havia por aqui, e ainda por cima sempre foram intérpretes extremamente sensíveis e cuidadosos.

23. Daí vem o melhor de todos, Milton Nascimento. Voz de veludo, licorosa e suave, sem deixar de ter um alcance que permite intepretações surpreendentes, tanto de sua mineira música (que é mais assim... mineira uai, sacumé?) quanto de um repertório mais amplo.

24. Djavan também tem uma voz muito gostosa e forte. Muito me lembra, na entrega aos temas que canta, o jamaicano Bob. Esta geração dos '70 traz ainda o cearense Fagner com um timbre único (mas de um repertório mais pobre) o paraibano Zé Ramalho e o pernambuco-malandro de Alceu Valença (cujas interpretações beiram o clown, por exemplo em Anjo Avesso, disco de 1982).

25. Tim Maia, é claro. Outro cara único, trouxe e adaptou a soul music americana ao nosso tempero e temperatura, o síndico cantava como ninguém (às vezes, literalmente, dado o desaparecimento frequente em shows) e tinha uma puta voz bonita. Gente defende que Wilson Simonal era melhor cantor, o problema é o repertório, enquanto Simonal parecia estar na era das Cantoras do Rádio (na maioria das vezes), Tim Maia já estava no futuro. Ainda assim, fugindo das obviedades que acompanharam a sua redescoberta no ano passado, a música Colecionador de Amigos, (que chegou aos meus ouvidos como um) presente de um Itabunense exilado em Londres, é sensacional...

26. Sim, o chato do sobrinho... Como negar que Ed Motta tem (provavelmente) a melhor voz do Brasil? Se ele tivesse morrido tragicamente após lançar o primeiro disco com Manuel e Vamos Dançar, estaríamos eternamente lamentando as coisas maravilhosa que ele não teria cantado. Graças a deus, ele sobreviveu mas o preço a pagar foi caro demais: Ed Motta é disparado o cantor mais chato do Brasil. Na van do barailaique não tem espaço pra ele... Outra que não caber nessa lotação é a cantora da moda, Ana Carolina, cheia de gingas, trejeitos e maneirismos vocais, acho chatíssima, peca pelo excesso, além do que seu repertório beira o intragável.

26. Do rock rock tupiniquim mesmo, acho que são poucos os destaques... Raul Seixas pela malandragem, bom humor e domínio total dos seus ritmos, sua voz fazia quase parte da percussão! A Rita Lee de depois da maternidade, no começo da era Roberto de Carvalho, passou a cantar com calma e malícia, dosando o ritmo, comprovadamente em Mania de Você, Lança Perfume e Baila Comigo.

27. A nossa geração do rock dos anos 80 infelizmente não tem uma safra de cantores tão boa. Ainda que alguns mitos como Cazuza e Renato Russo tenham surgido justamente nesta época, não é disso que estou falando. Frejat quando assumiu os vocais do Barão mostrou que tinha mais voz que Cazuza, pena que nunca soube direito o que fazer com ela. No mar de vocalistas que eram os titãs minhas vozes preferidas eram as de Sérgio Britto e Paulo Miklos. Arnaldo Antunes com seu timbre grave também se destaca, principalmente por seu trabalho pós-titãs, notadamente quando canta "música para criança" onde suas melodias vocais são mínimas, é quase que uma leitura, mas o resultado é quase sempre surpreendente.

28. Nando Reis mereceria a citação, não fosse seu timbre um tanto sofrível (apesar de muita sensibilidade na interpetação) mas, principalmente, porque Cássia Eller deu voz (e que voz...) às suas canções como se fossem dela. O disco Com Você meu Mundo Ficaria Completo certamente representa (junto com os de CSNZ) o melhor do pop-rock nacional dos anos 90. Aqui ela está de alto astral e muito bom-humor, ajudada pela produção impecável de Luiz Brasil. Até o som da banda acompanha esta sua nova fase (nos seus discos anteriores a impressão é a de que o som da banda não combina com sua voz).

Meio que sem-querer pulamos para as cantoras. Na verdade, sempre achei que cantar exige uma certa sensibilidade feminina... Como a mãe que nina seu bebê, a voz feminina traz outra cor à música.

29. Nossa música é riquíssima em cantoras, começando com a eterna e inigualável Elis Regina, passando pela linda e estranha voz de Bethania e até mesmo Gal Costa, apesar de eu não apreciar muito a gritaria que foi aos poucos se tornando seu trabalho pós Gal Tropical. Gosto também da baiana bossa nova Rosa Passos, outra que canta ninando (ainda que a nova não seja minha bossa) e da baiana Margareth Menezes que, infelizmente, não entra de vez no Axé Music e nem sai dela pra sempre. Mas é uma voz rara.

30. Uma nova de geração de cantoras maravilhosas temos hoje, o que há de melhor na música brasileira. Céu e Vanessa da Mata são minhas favoritas, não só pela voz, mas pela música que fazem, diferente e cheia de personalidade. Qualquer disco delas é um convite à boa música. Menos compositora que estas duas e de um estilo mais recatado, Fernanda Takai é a cantora dos meus sonhos, aquela que eu queria pra mim. Sua voz é um mantra apaziguador, e o disco em homenagem à Nara Leão é uma sessão de yoga.

31. Infelizmente, não temos uma nova geração de cantores tão boa. Talvez a melhor voz seja a do maranhense Zeca Baleiro, de timbre encorpado. Samuel Rosa tem a voz ideal para o pop, reta e sem firulas. Gosto também dos pernambucanos Chico Science, com seu estilo vocal de gibi e Lenine, um tanto pretensioso na poética (como Zeca) mas intérprete convincente e certeiro. Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) parece se alimentar de sua própria música e Siba (Mestre Ambrósio) também tem uma voz singular, completam o time que vem da terrinha...

Um monte de voz. Música cantada, reinvenção de sua função primitiva. Conteúdo, comunicação. Forma, expressão.

[M]

Um comentário:

  1. Como você pôde esquecer da Marisa Monte? Alguém deveria ter perguntado, e eu mesmo me adianta, cobrindo parcialmente a minha flaha. Bem, a verdade é que depois dos três primeiros discos dela, que rodaram até gastar, eu descurti. Essa sua fase compositora não me desce, sabe? Só que estes três primeiros discos (e parte do quarto também, apesar dos amor-i-love-you) já passam da conta de merecer a lembrança, a menção, o registro. E outra: a moça é nova, tem muito tempo pra se recuperar... ahahahahh!

    E a Maria Rita? Eu sempre escuto o pessoal que é muito fã da Elis torcer o nariz pra menina. Eu gosto! Acho o primeiro disco fabuloso e gosto muito do Samba Meu também... Claro, as comparações são inevitáveis, os trejeitos, o timbre, até mesmo o gosto musical. Eu nunca penso na Maria Rita como uma imitação da Elis e sim, nesta como uma inspiração, uma (forte, muito forte) influência para aquela.

    Mas o mais grave mesmo foi ter esquecido o Ney Matogrosso... Imperdoável! Desde os Secos e Molhados, revolucionário no visual, instigante na música, até na sua carreira solo, onde passa do rock'n'roll cru e básico à pescaria de pérolas com Rafael Rabello, assim ó, num tsc! Ney Matogrosso é, ao lado de Milton Nascimento, o maior cantor brasileiro vivo...

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