A música brasileira tem uma tradição vocal (e poética) muito superior à do rock'n'roll. Não vou percorrê-la, seria pobre perto do seu tamanho e sairia muito do foco original do post (algo que já me aconteceu na parte I...). Começo pela geração da Tropicália. Como cantores (e músicos e poetas...) ninguém foi tão longe.
22. Gilberto Gil e Caetano Veloso. Claro, ficaram velhos e chatos. Um virou ministro, administrador de ONG, vereador... Outro parece transformar sua música em artigo científico... Uma pena, mas esses caras mandaram pelos menos uns 20 anos de excelente música. A melhor que havia por aqui, e ainda por cima sempre foram intérpretes extremamente sensíveis e cuidadosos.
23. Daí vem o melhor de todos, Milton Nascimento. Voz de veludo, licorosa e suave, sem deixar de ter um alcance que permite intepretações surpreendentes, tanto de sua mineira música (que é mais assim... mineira uai, sacumé?) quanto de um repertório mais amplo.
24. Djavan também tem uma voz muito gostosa e forte. Muito me lembra, na entrega aos temas que canta, o jamaicano Bob. Esta geração dos '70 traz ainda o cearense Fagner com um timbre único (mas de um repertório mais pobre) o paraibano Zé Ramalho e o pernambuco-malandro de Alceu Valença (cujas interpretações beiram o clown, por exemplo em Anjo Avesso, disco de 1982).
25. Tim Maia, é claro. Outro cara único, trouxe e adaptou a soul music americana ao nosso tempero e temperatura, o síndico cantava como ninguém (às vezes, literalmente, dado o desaparecimento frequente em shows) e tinha uma puta voz bonita. Gente defende que Wilson Simonal era melhor cantor, o problema é o repertório, enquanto Simonal parecia estar na era das Cantoras do Rádio (na maioria das vezes), Tim Maia já estava no futuro. Ainda assim, fugindo das obviedades que acompanharam a sua redescoberta no ano passado, a música Colecionador de Amigos, (que chegou aos meus ouvidos como um) presente de um Itabunense exilado em Londres, é sensacional...
26. Sim, o chato do sobrinho... Como negar que Ed Motta tem (provavelmente) a melhor voz do Brasil? Se ele tivesse morrido tragicamente após lançar o primeiro disco com Manuel e Vamos Dançar, estaríamos eternamente lamentando as coisas maravilhosa que ele não teria cantado. Graças a deus, ele sobreviveu mas o preço a pagar foi caro demais: Ed Motta é disparado o cantor mais chato do Brasil. Na van do barailaique não tem espaço pra ele... Outra que não caber nessa lotação é a cantora da moda, Ana Carolina, cheia de gingas, trejeitos e maneirismos vocais, acho chatíssima, peca pelo excesso, além do que seu repertório beira o intragável.
26. Do rock rock tupiniquim mesmo, acho que são poucos os destaques... Raul Seixas pela malandragem, bom humor e domínio total dos seus ritmos, sua voz fazia quase parte da percussão! A Rita Lee de depois da maternidade, no começo da era Roberto de Carvalho, passou a cantar com calma e malícia, dosando o ritmo, comprovadamente em Mania de Você, Lança Perfume e Baila Comigo.
27. A nossa geração do rock dos anos 80 infelizmente não tem uma safra de cantores tão boa. Ainda que alguns mitos como Cazuza e Renato Russo tenham surgido justamente nesta época, não é disso que estou falando. Frejat quando assumiu os vocais do Barão mostrou que tinha mais voz que Cazuza, pena que nunca soube direito o que fazer com ela. No mar de vocalistas que eram os titãs minhas vozes preferidas eram as de Sérgio Britto e Paulo Miklos. Arnaldo Antunes com seu timbre grave também se destaca, principalmente por seu trabalho pós-titãs, notadamente quando canta "música para criança" onde suas melodias vocais são mínimas, é quase que uma leitura, mas o resultado é quase sempre surpreendente.
28. Nando Reis mereceria a citação, não fosse seu timbre um tanto sofrível (apesar de muita sensibilidade na interpetação) mas, principalmente, porque Cássia Eller deu voz (e que voz...) às suas canções como se fossem dela. O disco Com Você meu Mundo Ficaria Completo certamente representa (junto com os de CSNZ) o melhor do pop-rock nacional dos anos 90. Aqui ela está de alto astral e muito bom-humor, ajudada pela produção impecável de Luiz Brasil. Até o som da banda acompanha esta sua nova fase (nos seus discos anteriores a impressão é a de que o som da banda não combina com sua voz).
Meio que sem-querer pulamos para as cantoras. Na verdade, sempre achei que cantar exige uma certa sensibilidade feminina... Como a mãe que nina seu bebê, a voz feminina traz outra cor à música.
29. Nossa música é riquíssima em cantoras, começando com a eterna e inigualável Elis Regina, passando pela linda e estranha voz de Bethania e até mesmo Gal Costa, apesar de eu não apreciar muito a gritaria que foi aos poucos se tornando seu trabalho pós Gal Tropical. Gosto também da baiana bossa nova Rosa Passos, outra que canta ninando (ainda que a nova não seja minha bossa) e da baiana Margareth Menezes que, infelizmente, não entra de vez no Axé Music e nem sai dela pra sempre. Mas é uma voz rara.
30. Uma nova de geração de cantoras maravilhosas temos hoje, o que há de melhor na música brasileira. Céu e Vanessa da Mata são minhas favoritas, não só pela voz, mas pela música que fazem, diferente e cheia de personalidade. Qualquer disco delas é um convite à boa música. Menos compositora que estas duas e de um estilo mais recatado, Fernanda Takai é a cantora dos meus sonhos, aquela que eu queria pra mim. Sua voz é um mantra apaziguador, e o disco em homenagem à Nara Leão é uma sessão de yoga.
31. Infelizmente, não temos uma nova geração de cantores tão boa. Talvez a melhor voz seja a do maranhense Zeca Baleiro, de timbre encorpado. Samuel Rosa tem a voz ideal para o pop, reta e sem firulas. Gosto também dos pernambucanos Chico Science, com seu estilo vocal de gibi e Lenine, um tanto pretensioso na poética (como Zeca) mas intérprete convincente e certeiro. Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) parece se alimentar de sua própria música e Siba (Mestre Ambrósio) também tem uma voz singular, completam o time que vem da terrinha...
Um monte de voz. Música cantada, reinvenção de sua função primitiva. Conteúdo, comunicação. Forma, expressão.
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