sexta-feira, 9 de julho de 2010

Estrada do Sol (parte II)

Sim! chegamos a nossa querida e ensolarada terra-mãe...

A música brasileira tem uma tradição vocal (e poética) muito superior à do rock'n'roll. Não vou percorrê-la, seria pobre perto do seu tamanho e sairia muito do foco original do post (algo que já me aconteceu na parte I...). Começo pela geração da Tropicália. Como cantores (e músicos e poetas...) ninguém foi tão longe.

22. Gilberto Gil e Caetano Veloso. Claro, ficaram velhos e chatos. Um virou ministro, administrador de ONG, vereador... Outro parece transformar sua música em artigo científico... Uma pena, mas esses caras mandaram pelos menos uns 20 anos de excelente música. A melhor que havia por aqui, e ainda por cima sempre foram intérpretes extremamente sensíveis e cuidadosos.

23. Daí vem o melhor de todos, Milton Nascimento. Voz de veludo, licorosa e suave, sem deixar de ter um alcance que permite intepretações surpreendentes, tanto de sua mineira música (que é mais assim... mineira uai, sacumé?) quanto de um repertório mais amplo.

24. Djavan também tem uma voz muito gostosa e forte. Muito me lembra, na entrega aos temas que canta, o jamaicano Bob. Esta geração dos '70 traz ainda o cearense Fagner com um timbre único (mas de um repertório mais pobre) o paraibano Zé Ramalho e o pernambuco-malandro de Alceu Valença (cujas interpretações beiram o clown, por exemplo em Anjo Avesso, disco de 1982).

25. Tim Maia, é claro. Outro cara único, trouxe e adaptou a soul music americana ao nosso tempero e temperatura, o síndico cantava como ninguém (às vezes, literalmente, dado o desaparecimento frequente em shows) e tinha uma puta voz bonita. Gente defende que Wilson Simonal era melhor cantor, o problema é o repertório, enquanto Simonal parecia estar na era das Cantoras do Rádio (na maioria das vezes), Tim Maia já estava no futuro. Ainda assim, fugindo das obviedades que acompanharam a sua redescoberta no ano passado, a música Colecionador de Amigos, (que chegou aos meus ouvidos como um) presente de um Itabunense exilado em Londres, é sensacional...

26. Sim, o chato do sobrinho... Como negar que Ed Motta tem (provavelmente) a melhor voz do Brasil? Se ele tivesse morrido tragicamente após lançar o primeiro disco com Manuel e Vamos Dançar, estaríamos eternamente lamentando as coisas maravilhosa que ele não teria cantado. Graças a deus, ele sobreviveu mas o preço a pagar foi caro demais: Ed Motta é disparado o cantor mais chato do Brasil. Na van do barailaique não tem espaço pra ele... Outra que não caber nessa lotação é a cantora da moda, Ana Carolina, cheia de gingas, trejeitos e maneirismos vocais, acho chatíssima, peca pelo excesso, além do que seu repertório beira o intragável.

26. Do rock rock tupiniquim mesmo, acho que são poucos os destaques... Raul Seixas pela malandragem, bom humor e domínio total dos seus ritmos, sua voz fazia quase parte da percussão! A Rita Lee de depois da maternidade, no começo da era Roberto de Carvalho, passou a cantar com calma e malícia, dosando o ritmo, comprovadamente em Mania de Você, Lança Perfume e Baila Comigo.

27. A nossa geração do rock dos anos 80 infelizmente não tem uma safra de cantores tão boa. Ainda que alguns mitos como Cazuza e Renato Russo tenham surgido justamente nesta época, não é disso que estou falando. Frejat quando assumiu os vocais do Barão mostrou que tinha mais voz que Cazuza, pena que nunca soube direito o que fazer com ela. No mar de vocalistas que eram os titãs minhas vozes preferidas eram as de Sérgio Britto e Paulo Miklos. Arnaldo Antunes com seu timbre grave também se destaca, principalmente por seu trabalho pós-titãs, notadamente quando canta "música para criança" onde suas melodias vocais são mínimas, é quase que uma leitura, mas o resultado é quase sempre surpreendente.

28. Nando Reis mereceria a citação, não fosse seu timbre um tanto sofrível (apesar de muita sensibilidade na interpetação) mas, principalmente, porque Cássia Eller deu voz (e que voz...) às suas canções como se fossem dela. O disco Com Você meu Mundo Ficaria Completo certamente representa (junto com os de CSNZ) o melhor do pop-rock nacional dos anos 90. Aqui ela está de alto astral e muito bom-humor, ajudada pela produção impecável de Luiz Brasil. Até o som da banda acompanha esta sua nova fase (nos seus discos anteriores a impressão é a de que o som da banda não combina com sua voz).

Meio que sem-querer pulamos para as cantoras. Na verdade, sempre achei que cantar exige uma certa sensibilidade feminina... Como a mãe que nina seu bebê, a voz feminina traz outra cor à música.

29. Nossa música é riquíssima em cantoras, começando com a eterna e inigualável Elis Regina, passando pela linda e estranha voz de Bethania e até mesmo Gal Costa, apesar de eu não apreciar muito a gritaria que foi aos poucos se tornando seu trabalho pós Gal Tropical. Gosto também da baiana bossa nova Rosa Passos, outra que canta ninando (ainda que a nova não seja minha bossa) e da baiana Margareth Menezes que, infelizmente, não entra de vez no Axé Music e nem sai dela pra sempre. Mas é uma voz rara.

30. Uma nova de geração de cantoras maravilhosas temos hoje, o que há de melhor na música brasileira. Céu e Vanessa da Mata são minhas favoritas, não só pela voz, mas pela música que fazem, diferente e cheia de personalidade. Qualquer disco delas é um convite à boa música. Menos compositora que estas duas e de um estilo mais recatado, Fernanda Takai é a cantora dos meus sonhos, aquela que eu queria pra mim. Sua voz é um mantra apaziguador, e o disco em homenagem à Nara Leão é uma sessão de yoga.

31. Infelizmente, não temos uma nova geração de cantores tão boa. Talvez a melhor voz seja a do maranhense Zeca Baleiro, de timbre encorpado. Samuel Rosa tem a voz ideal para o pop, reta e sem firulas. Gosto também dos pernambucanos Chico Science, com seu estilo vocal de gibi e Lenine, um tanto pretensioso na poética (como Zeca) mas intérprete convincente e certeiro. Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) parece se alimentar de sua própria música e Siba (Mestre Ambrósio) também tem uma voz singular, completam o time que vem da terrinha...

Um monte de voz. Música cantada, reinvenção de sua função primitiva. Conteúdo, comunicação. Forma, expressão.

[M]

Estrada do Sol (parte I)

O plano era começar a falar sobre as vozes brasileiras mas, a lista de esquecidos ficou grande demais e preciso continuar com eles...

18. A Andréa pede que eu cite Chris Robinson, dos Black Crowes. O texto poderia até ser análogo àquele sobre Jeff Tweedy e a música do Wilco uma vez que a voz de Chris e a música do Corvos são absolutamente indissociáveis (ainda que eu ache que sua voz tem uma tendência a ficar ardida demais às vezes, com se tivesse um drive ligado na garganta).

19. O camaleão David Bowie também foi injustamente esquecido. E o gancho nos leva a Lou Reed (que estava longe de ser um grande cantor) e a Iggy Pop (que se eu não cito capaz de perder um grande parcela de meus seguidores). Este último não me agrada no seu período inicial, cru e gritado, mas sua voz madura como no magnífico dueto com Katie Pearson (B52's) em Candy.

20. E o que dizer dos pioneiros esquecidos do Blues? De novo, Muddy Waters e John Lee Hooker são vozes obriagatórias. Graves, malandras e cheias da alma do blues, bem como Howlin' Wolf, que era "só" cantor. No outro extremo do espectro vocal tem os cantores de soul, grupos negros vocais de voz mais fininha... Conheço pouco, e gosto bastante de Smokey Robinson (além do que, ótimo compositor). No meio do caminho, James Brown!, como fui me esquecer dele? Lembrei também dos irmãos australianos Bee Gees, isso marcou época não? Stayin' Alive é hit obrigatório de qualquer banda de casamento/formatura que se preze. Difícil é alcançar aquele agudo...

21. Dois nomes menos conhecidos são Jeff Buckley e Elliott Smith. Ambos faleceram tragicamente deixando uma discografia muito pequena. O primeiro tem em Grace sua obra-prima, cantor de recursos vocais extraordinários e timbres únicos. O segundo tem um som e uma voz mais comedidos (se comparados com o anterior), do tipo mineirinho come quieto, mas que fica nervos e vez em quando. Recomendo Xo e From a Basement on a Hill.

Sim, e acho que não vou ficar vasculhando mais a memória... Se alguém me aparece desavisadamente, vai pros comentários... No meio do caminho, entre o pop-rock internacional e o tupiniquim, lembro-me de dois nomes cucarachas (ou quase):

22. Pau Donés guitarrista e vocalista do espanhol Jarabe de Palo e o uruguaio Jorge Drexler são minhas vozes preferidas em espanhol (incluiria aqui outro espanhol, Camarón de la Isla, mas isso já foge bastante do foco original), principalmente o segundo. Os africanos Salif Keita (Mali), Baba Maal e Youssou N'Dour (ambos do Senegal, princialmente os senegaleses, trazem uma rica e agradável mistura de ritmos e melodias locais com o universo pop global. E são cantores de primeira. Menos global, mas ainda melhor do ponto de vista da voz é a cabo-verdeana Cesária Évora, que foi mania por aqui há uns anos atrás, quando foi "descoberta" por Caetano Veloso. Bom, já que abri o leque, que tal a impressionante voz de Ibrahim Ferrér, de Buena Vista Social Club? Melhor parar por aqui, ou o post não termina nunca...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Continuando a estrada da voz...

7. Parei na princesa (ou rainha), agora entra o ogro: Ozzy Osbourne. É a síntese do vocal de heavy metal. Um contraponto agudo a massa sonora de registro extremamente grave do Black Sabbath. E o mais importante: parece que jamais se levou totalmente à sério.

8. Johnny Cash é uma voz impressionante. Transitando entre o folk e o country é impossível não se render às suas interpretações, mesmo que não goste do estilo. Seus últimos registros são fantásticos, ele refaz Rusty Cage e Personal Jesus (pra ficar só em dois exemplos) como se fossem suas.

9. Bob Marley provavelmente é o mais apaixonado cantor que eu já ouvi. Apaixonado pela sua música, pelas verdades que ele vive ali. Qualquer música na voz de Bob é um depoimento sincero e comovente.

10. Kelly Jones, guitarrista da banda galesa Stereophonics tem um registro impressionantemente rouco. Lembra o Rod Stewart dos Faces. Mas Kelly é mais malandro e cheio de bossa, beira o exagero às vezes. Interpretando Don't Let me Down, dos Beatles ele consegue ser ainda mais convincente que o próprio Lennon. Sublime.

11. Mas, nenhuma voz dessa nova geração roqueira é tão impressionantemente boa quanto a de Caleb Followill, do Kings of Leon. Além de um timbre único, uma voz muito bonita mesmo, ele acelera e "tira o pé" na hora certa. Claro que sua banda é muito boa, mas muitas de suas melhores canções são levadas, até mesmo ritmicamente, pela voz impressionante de Caleb.

12. Não poderia deixar de falar de quem não vou falar: Elvis. Acho chato, típico herói americano. Claro que é talentoso e tinha uma voz incrível. Mas quando penso no rei do rock, lembro daquela jaqueta branca cravejada de brilhantes ou aquelas rídiculas películas que assolavam Sessão da Tarde na década de 70. Além do que, suas boas músicas não lotam um fusca. Junte-se aqui outro herói americano, morto recentemente, que não merece sequer a não-citação e também o vox de uma banda irlandesa que tem o som maneiríssimo, mas que esse sujeito enjoado consegue estragar.

13. Meu gosto pela voz de Jeff Tweedy deve se confundir com o tanto que eu gosto da música do Wilco. De qualquer forma, duvido que sem ele o som da banda seria o mesmo (até porque ele é meio que o dono da banda...)

14. Eric Burdon dos Animals é meu vocalista preferido das bandas dos sixties. Linda voz, cheia de energia. Também merecem registro Roger Daltrey do The Who e, claro, o eterno Jim Morrison.

15. As harmonias vocais mais belas do rock devem-se à Crosby, Stills e Nash (e Young). É claro, não há aqui ineditismo, grupos vocais eram frequentes entre a música negra (Temptations, Supremes) e mesmo os Beach Boys já faziam isso desde o início da sua carreira e o Queen levaria esta idéia a extremos (então) inimagináveis. O álbum homônimo é fantástico e trilha obrigatória de Woodstock. A melhor descrição de sua música vem de Wooden Ships: Wooden ships on the water, very free... Easy, the way it's suposed to be...

16. Sim, existe uma penca de vocalistas negros de soul, gospel etc e tal que colocariam (pelo menos) metade desta lista de joelhos... Conheço pouco a paragem. Gosto muito de Otis Redding e Marvin Gaye, são dois registros e idéias de cantar muito distintos e, coincidentemente tiveram fim tragico (principalmente Marvin Gaye, assasinado pelo próprio pai). O pouco conhecido Baby Huey morreu antes de completar seu único disco, mas deve ser reconhecido como uma voz potente e brilhante. O lindo disco gospel de Ben Harper com os Blind Boys of Alabama também está na categoria de música vocal da mais alta qualidade. Stevie Wonder adoro ouvir também sua voz, além de sua música excepcional, e o falecido Billy Preston tem uma participação magnífica no Concert for George. Claro, isso tudo sem falar no maior de todos, Ray Charles, que é sinônimo de música, em todos os sentidos.

17. A presença da voz humana na música pop abre as portas para a presença feminina no rock, que sempre foi clube do bolinha. Janis Joplin é referência óbvia, obrigatória e, mais do que justa. Nenhum vocalista homem de rock jamais chegou a seus pés. Jóia, mais que rara, única. Mas a minha favorita mesmo é Aretha Franklin. Onde é normal escutar uma pá de vocalistas que cantam gritando, Aretha grita (quando necessário) cantando. Da nova geração, gosto de Norah Jones, mas Amy Winehouse é simplesmente imbatível. Impossível não se render à sua música, e como se não bastasse, seu comportamento já é a de um mito pop, com vida pessoal atribulada regada a casos amorosos indizíveis e todo o tipo de drogas.

[CONTINUA AINDA, COM A VOZES DO BRASIL]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Seguindo a estrada...

E seguindo a lista de guitarristas, a outra ponta fundamental do rock'n'roll e da música pop: a voz. Claro que sem letra, o rock é quase nada. Seria quase um jazz de baixa qualidade. Mas a letra, a canção elevam o rock à posição de mãe de todas as artes pops do século passado. Este curioso caminho leva ao rap, quase uma ruptura entre música e letra, processo que destila a canção em duas partes quase desiguais.

Mas o assunto não é esse. E sim, mais uma lista. Quais os cantores favoritos deste blogue? A lista segue os padrões das anteriores: nenhum critério objetivo, apenas gosto. E continuo sem ordem de preferência...

1. Começo com Mick Jagger. Tento redimí-lo de sua azarada aprição na copa do mundo de 2010. Ele certamente conseguiu um eterno "passe proibido - persona non grata" em qualquer estádio de futebol. E começo justamente por aquele que deve ser o cantor mais fraco (do ponto de vista da técnica vocal) desta lista. E é aí que esta, de novo, o segredo da maior banda de rock de todos os tempos, este encontro de músicos limitados que o tem em plena consciência, com disposição, bom gosto e sensibilidade para fazer a melhor música possível, esticando a fronteira destes limites ao máximo. Além do que, este é o cara que transforma um show ao vivo em espetáculo inesquecível. Ele catalisa, como uma faísca, o processo que é inerente à música dos stones. Os stones são energia potencial enquanto que Mick é cinética. Seu grande momento (além dos anos clássicos da transição de Brian Jones para Mick Taylor) é o álbum Black and Blue, de 1976.

2. Neil Young. Ele é rústico, cru e tem um timbre único. Transita do folk ao grunge sem meios termos e com a maior naturalidade. Como compositor é brilhante, tem a mais honesta coleção de músicas desde que o rock foi inventado. E como se não bastasse, este cara interpreta suas próprias músicas como se não fosse ele mesmo quem as escreveu. No clássico ao vivo de CSNY, Four Way Street, ele executa um set acústico (e sozinho com seu violão) de músicas originalmente elétricas, Don't Let it Bring You Down, Cowgirl in the Sand e Down by the River. De arrepiar.

3. Van Morrison. Aqui está a primeira grande voz da lista. O bardo irlandês não economiza talento quando tem de cantar. E apesar da grande potencialidade vocal, sobra enorme margem para uma sensibilidade incomum. Seja em suas próprias canções (ouça-o por exemplo cantando Caravan no show de despedida de The Band...) ou em interpretações de soul, como no ao vivo It's too Late to Stop Now, Van é o cara.

4. Eddie Vedder. O melhor de sua geração. Por incrível que pareça no aclamado álbum de estréia do Pearl Jam, Eddie ainda não tinha encaixado sua voz... Este processo aconteceu ao longo dos discos sequentes, e culmina em Riot Act, considerado um trabalho menor na discografia da banda, onde o vocalista pode mostrar sua incrível sensibilidade para cantar baladas e músicas com andamento mais lento e menos agressivo. Afinadíssimo e dono de belíssimo timbre, Vedder fez desmanchar a pedreira Paulo Leminski cantando The Last Kiss só com sua guitarra enquanto resto da banda tomava um refresco. Seu grande momento entretanto me parece a trilha sonora de Na Natureza Selvagem (Into the Wild).

5. Paul McCartney era a voz mais bonita do Beatles, além de ser o cara que melhor transitava entre diferentes estilos e temperamentos. No álbum branco de 68 ele canta rock'n'roll (Back in the USSR), baladas folk (Blackbird ou Rocky Raccoon), primórdios do Heavy Metal (Helter Skelter), jazz (Honey Pie) e outros com a maior naturalidade. Sou fã.

6. Freddie Mercury. Meu cantor favorito, leva ao extremo o talento de Paul para variar entre estilos, o de Mick como catalisador, e o de Van Morrison como voz. Intérprete de suas prórpias composições ou de outros membros da banda como Brian May e John Deacon, Freddie sempre se lançou inteiro, de corpo e alma nas canções. Em Bohemian Rhapsody, você realmente acredita que ele matou um cara, enquanto que Somebody to Love é uma verdadeira autobiografia. A diversidade de seu talento como cantor fica evidente principalmente em News of the World (de '77), onde além de clássicos do Queen, cito duas canções menos conhecidas, Who Needs You (de Deacon) e Melancholy Blues (dele mesmo). Homossexual assumido, morreu de Aids é a antítese do roqueiro típico (junkie, comedor e empunhando uma guitarra), indo muito além do universo rok'n'roll com sua música.

[CONTINUA...]

terça-feira, 29 de junho de 2010

LISTA DE ERRATAS

Eu sabia que seria apenas uma questão de tempo entre eu publicar uma maldita lista e me arrepender dos nomes esquecidos... Na minha lista de guitarristas por exemplo, é claro que isto aconteceu.

Carlos Santana eu sequer citei na lista de injustiçados o que torna o guitarrista americoxicano duplamente injustiçado. Ainda que eu ache o som dele um pouco repetitivo existe um grande número de ótimos momentos, e esses dias mesmo eu escutava duas música de uma colaboração sua com John Lee Hooker, e ficou simplesmente fantástico.

Ry Cooder também merecia uma lembrança, seu trabalho no slide é bastante delicado e inspirado. Quando citei o fiel escudeiro de Keith Richards, o stone mais novo Ronnie Wood, esqueci de mencionar seu trabalho brilhante com os Faces, Sweet Lady Mary tem um trabalho magnifico de lap steel e Stay with Me é rock'n'roll irrestível... Os dois guitarristas da segunda formação dos Black Crowes, Marc Ford, guitarrista solo, e o irmão fundador Rich Robinson são de chacoalhar o esqueleto, responsáveis pelo som na melhor fase da banda, assim como o novo guitarrista solo, Luther Dickinson, que tem uma abordagem um pouco mais country.

Marc Ford tem um trabalho lindo no disco de gospel que Ben Harper gravou com os Blind Boys of Alabama, o que já me lembra outro nome esquecido, Ben é um exímio guitarrista, principalmente no slide, e o público brasileiro o conhce muito bem pela lindo dueto com Vanessa da Mata em Boa Sorte/Good Luck.

Mas o que eu mais me arrependo de ter esquecido é o irlandês Rory Galagher, guitarrista quase obscuro que era capaz de tocar gaita e slide simultaneamente (e ainda cantava). O álbum póstumo Rory foge um pouco ao seu estilo original mas traz momentos acústicos belíssimos.

Alguns nomes do Jazz também poderiam merecer uma citação, Wes Montgomery, Charlie Christian e o cigano Django Reinhardt, mas não é a minha praia. Gosto muito de George Benson, que se rendeu ao pop com muito estilo e o "pianista" Stanely Jordan, que desenvolveu uma técnica única e cuja interpretação de Eleanor Rigby é de arrepiar...

Entre os brasileiros, gosto muito de Davi Moraes que deve ter tido umas aulinhas com o pai Moraes Moreira e o "tio" Pepeu; e John Ulhoa, que sabe como ninguém tocar com a linda e deliciosa voz da Fernanda Takai.

Espero não ter esquecido mais ninguém dessa vez...
[M]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Será mago?

Imagino eu que no dia de hoje, ao redor do globo, um sem número de blogues deve estar falando sobre José Saramago... Destes, o que mais me deixa curioso é, como não poderia deixar de ser, a pena vadia. Até porque eu nem sou assíduo leitor de blogues e este é mesmo um dos meus favoritos. E lá vou a derivar do assunto principal...

Outro dia uma pessoa muito querida me pediu umas dicas de blues em português, que não fossem (é óbvio) os blues etílicos. Esquivei-me dessa com a desculpa de que blues e português não combinam, salvo momentos bastante pontuais (o Cartão Postal da Rita Lee é meu favorito...). Mas nada de esfarrapada tem essa desculpa, eu acho isso mesmo. A língua, ou, as línguas, têm um ritmo, uma cadência e uma sonoridade própria. Da mesma forma que samba em japonês costuma ser esquisito, blues em português também enrosca. Como também o rock em italiano ou em francês não me desce.

Mas há exceções. Mesmo que não entenda muito bem as palavras, o rap francês do McSolaar é melhor do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido na sua língua original, bem como o blues-rock com sotaque flamenco de Jarabe de Palo me soa muito bem, como se estes artistas tivessem descoberto o viés comum entre sua língua falada e uma música que originalmente nasceu em outro ramo linguístico. O mesmo se pode dizer do uruguaio Jorge Drexler, que consegue encaixar perfeitamente o espanhol numa mistura de música (hispano-)latina, brasileira e pop-rock inglês.

Aqui mesmo nos trópicos ensolarados, terra do samba, da bossa-nova, forró, moda de viola e tantas outras diversidades, a musicalidade do rock também se encontrou com a nossa língua de maneira sublime em Raul e seus parceiros, Rita Lee, a turma dos anos 80 e, mais contemporaneamente, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Lenine, Vanessa da Mata, Céu... Bem, a lista parece ser extensa, ainda mais com pitadas de Gil, Caetano e do Clube da Esquina. Mesmo que a poesia rock-brasileira não seja lá a de um Chico Buarque, bem, acho que a proposta nem é essa mesmo, não é?

E onde entra o Saramago? Bem, sinto que eu mesmo me perdi um pouco... Descobri o Saramago lá na primeira metade dos anos 90, um livro (Jangada de Pedra) depois outro, depois outro... Foi overdose! A leitura de Saramago é cheia de ritmo (bem, toda leitura é, não é mesmo? Acabo de ser contrariado aqui do meu lado. Enfim...), mas ele consegue ser frenético no encadeamento de ideias e ao mesmo tempo suave na sua forma de manifestá-las. Muito difícil captar esse seu ritmo, mas muito fácil acompanhá-lo, Saramago é um músico que torna seu leitor bailarino inconsciente.

Ave José.

[M]

terça-feira, 8 de junho de 2010

LISTAS, LISTAS (...CONTINUAÇÃO)

6. O menestrel Steve Howe tocou guitarra na banda (e no gênero) que ficou conhecido pelos teclados. Mas não se engane: Steve Howe era o verdadeiro coração do Yes. De formação erudita, Steve sabia tocar violão folk, guitarra espanhola, bandolim enfim, tudo que tivesse cordas. Mas também não se acanhava de maneira nenhuma em meter a mão nas suas Gibson ou de tocar slide suavemente. Ingrediente fundamental na música do Yes, os licks de Heart of the Sunrise e Siberian Kathru não me deixam mentir.

7. Os voadores Jeff Beck e Derek Trucks. Jeff Beck começou com os Yardbirds tocando blues e rock e com a difícil missão de substituir E.C. E por ironia do destino, com ele a banda ficou ainda melhor, ele tinha uma abordagem mais agressiva e experimental. Isso já seria por si só digno de nota, mas não é tudo... Continuou na toada com Jeff Beck Group, que pode ser considerada uma das bandas precursoras do Heavy Metal. Mais um último disco (fantástico) de rock com os "Cactus" Bogart e Appice e Jeff deciciu migrar para a música instrumental numa estilo que chamaremos, na falta de nome melhor, fusion. Mais ou menos nesta época abandona de vez a palheta e passa a tocar só com os dedos, o que mudou totalmente sua abordagem do instrumento e sua musicalidade. Cause we've ended as lovers e Superstition de Stevie Wonder e a recente releitura de A day in the life dos Beatles são de tirar o fôlego. Derek Trucks é sobrinho de Butch Trucks, baterista original dos Allman Brothers Band, o que lhe confere um estranho e distante parentesco com Duanne Allman, o Sky Dog. Ainda mais quando constatado que Derek nasceu cerca de 10 anos depois de sua prematura morte. Derek toca de maneira magistral a guitarra slide, e a influência de Duanne é óbvia, mas, na minha opinião sua música é ainda melhor. Ele abusa de entretons o que confere ao som de sua banda uma certa sonoridade oriental, mesmo sem tablas, cítaras e outra peças do gênero. Songlines e Already Free, seus dois últimos álbuns são imprescindíveis (saiu um ao vivo recente agora mesmo em 2010).

8. Os artesãos Jack White e Tom Morello. Dois guitarristas pancada mesmo, Tom Morello é impressionantemente inventivo mas a música de Rage Against the Machine é difícil de escutar por mais de 10 minutos consecutivos, recomendo Audioslave, sua nova banda que é mais pop. Jack White é mais simples e faz uma mistura de punk rock com blues que dá certo. De Stijl é o melhor disco do White Stripes e sua guitarra pode ser apreciada com facilidade, enquanto que nos Raconteurs você vai escutar melhor a sua música como um todo. A trilha de James Bond-Quantum of Solace com Alicia Keys é imperdível...

9. O cavalheiro John Frusciante. O guitarrista dos Peppers é extremamente elegante e melódico e; ainda por cima, vintage. Além de alternar levadas pesadas com funks precisos é capaz de executar as mais belas baladas como Under the Bridge. Sua abordagem encaixa de maneira perfeita na música dos RHCP, no melhor exemplo de músico a serviço da música e não o oposto.

Robbie Robertson tocando uma... um... bem, deixa pra lá.

10. Os caipiras Robbie Robertson e Albert Lee. O primeiro, guitarrista da The Band e seu principal compositor. Como tal, traz outra percepção para o papel da guitarra na música: primeiro vem a composição, depois a guitarra vai colorindo o desenho que se esboça. Albert Lee já fez parte da banda de Eric Clapton (Another Ticket) mas é tocando guitarra country que ele pode ser melhor apreciado. Recomendo seu trabalho junto com os Bill Wyman's Rhythm Kings.

11. Os pioneiros Robert Johnson, Chuck Berry, Muddy Waters e John Lee Hooker. Mais pelo pioneirismo do que pelo som, eu não sou muito chegando naquelas gravações chiando a agulha com vocal de banheiro apertado, mas Robert Johnson tem um baú de composições atemporais (em especial a interpretação dos Stones para Love in Vain), Muddy Waters eletrificou o blues e também era um compositor magnífico (além de uma voz inesquecível), Chuck Berry inventou a guitarra rock e John Lee Hooker era o rei do Boogie e ninguém mais toca (ou tocou como ele).

12. Os sanchos-pança Mick Taylor e Ronnie Wood. Dom Keith Richards de la Mancha pouco seria sem seus fiéis escudeiros às avessas... Mick Taylor era discreto e sem nenhuma pressa, a conferir seus solo de slide na versão ao vivo de Love in Vain: magnífica. Com a troca deste por Ron Wood (que já tinha um trabalho fantástico como guitarrista dos Faces, escute Sweet Lady Mary por exemplo) a fronteira entre os papéis de guitarrista rítmico e solista nos Stones ficou mais difusa... Confira o álbum Some Girls, especialmente a faixa-título.

13. Os injustiçados (desta lista): o mestre do slide Duanne Allman, os heróis do metal Toni Iommi, Rtchie Blackmore e Steve Morse, o tornado texano Stevie Ray Vaughan, o bluesman com suingue B.B. King, o super-herói da velocidade Eddie Van Halen e o saudosista Brian Setzer talvez merecessem mais atenção, mas o post já vai por demais se estendendo e eu já estou de saco cheio de escrever...

14. Os Xaropes Steve Vai e Joe Satriani. Nem vou comentar. Tecnicamente os melhores da lista, nota 1.000. Musicalmente, desprezíveis.

15. Os brasileiros: Lanny Gordin, Sérgio Dias Baptista, Luis Sérgio Carlini, Pepeu Gomes, Roberto de Carvalho, Edgard Scandurra e Lucio Maia.
Lanny era o guitarrista da tropicália. Desta forma seu som ia muito além do rock e pode ser conferido nos melhores discos da época, em especial no Expresso 2222 do Gil. Sérgio dispensa maiores apresentações, guitarrista dos Mutantes e um dos motores criativos daquela que foi a melhor de todas aqui na terrinha. Dune Buggy e Cantor de Mambo são meus momentos favoritos. Pepeu guitarrista dos Novos Baianos, onde ficava escondido pode ser melhor apreciado quando a banda terminou e ele se juntou a Baby em carreira "solo a dois". Deu canja em muitos álbuns por aí, incluindo A Cor do Som, Moraes Moreira... Carlini e Roberto estão diretamente ligados à careira da rainha do rock, Rita Lee. O primeiro ajudou a mostra que ela poderia se virar, e muito bem, sem os Mutantes. Os dois primeiros álbuns dela com o Tuti-Frutti (Atrás do Porto tem uma Cidade e Fruto Proibido) estão entre o que há de melhor na discografia de rock nacional. O solo repetido de Ovelha Negra já é parte do cancioneiro nacional, exemplo da beleza das coisas simples. Roberto o marido, companheiro e multiinstrumentista que encarou o desafio de transformá-la em sucesso pop sem perder um pingo de qualidade musical. Rita Lee de '79, o homônimo de '80 (também chamado de Lança-perfume) e o disco Saúde (de '81) contém o melhor de sua produção, em especial em Bem-me-quer (de '80). Edgard, guitarrista do Ira! é o melhor guitarrista de sua geração, disparado. Pena que nem suas canções nem sua banda fosse tão boa quanto Ultraje, Titãs, Paralamas ou Barão. Dono de uma técnica única (que só conheço no violonista Canhoto da Paraíba), Edgard que é canhoto, toca numa guitarra de destro ao contrário, o que deixa as cordas mais graves em baixo e as mais agudas em cima. Não consigo nem imaginar como ele monta os acordes... Lúcio Maia (geralmente) é o contraponto melódico da Nação Zumbi, o que faz com maestria. Sem jamais se sobrepor às canções (geniais principalmente na época de Chico Science) Lúcio vai preenchendo de maneira elegante (ou agressiva) conforme a conveniência os buracos abertos pelo estraçalhar dos tambores da Nação.